Enquanto toma conta do seu bebé, quem toma conta de si?

 

 

Esta semana enquanto levei o Francisco à consulta dos seis meses, ao folhear a revista “A nossa gravidez”, que por sinal tem sempre artigos com imensa qualidade, li numa marca que envolvia a revista: – Enquanto toma conta do seu bebé, quem toma conta de si? E de repente, foi como se tivesse sido atingida por um raio. É isso, exactamente isso! Foi assim que me senti após ter os meus dois filhos, e que tanto medo tive de dizer em voz alta. Preciso que tomem conta de mim! Foi por isso que comecei este blog e é isso que sinto vontade de fazer. Tomar conta das mães. Ajudá-las! Apoiá-las para que não se sintam sozinhas. Porque ao tomarmos conta dos nossos filhos, muitas vezes ficamos para trás e precisamos que alguém nos ajude.

Esse alguém que nos devia estender a mão muitas vezes não está perto, porque estamos longe de casa. Não existe, porque o pai é ocupado ou ausente, porque os avós não são disponíveis, porque durante a semana estamos a trabalhar, a cuidar da casa e da família, e ao fim de semana (quem tem filhos sabe do que falo) temos pilhas de tarefas acumuladas, a serem feitas com os miúdos atrás. Se vale a pena? É claro que sim, porque apesar de nos cansarem ao ponto de por vezes parecer que fomos atropeladas por um comboio e ainda são 10h30 da manhã, também nos dão as maiores alegrias e momentos únicos de amor, cumplicidade e diversão.

Que mãe não passou por pelo menos um dos momentos ilustrados no artigo? Eu já, aliás com toda a sinceridade, faço check em todos eles e ainda podia acrescentar mais alguns.

  • Demorar 45 min quando estás quase a sair de casa.
  • Amamentar no local mais improvável, porque simplesmente já não sabes o que fazer porque o teu filho não se cala (e se nada resolve, a maminha pode ser a salvação).
  • Estar a amamentar e o telefone toca, ou tocam à porta, ou precisas alcançar algo que ainda te falta 1 danoninho para lá chegar e está quaseeeee. No segundo filho, quase todas as vezes que estou sozinha com os dois o João que tem três anos só tem vontade de ir fazer cocó quando o irmão está a mamar e então lá oiço aquele: – Oh mãããeeee! Já fiz cocó!
  • Fazes uma viagem longa, estás na auto-estrada (ou seja não podes de repente parar) e o teu bebé não pára de chorar e com a cadeira está lá atrás não consegues pôr-lhe a chucha, às tantas são os dois a chorar.
  • Acabadinho de lavar, arranjar e sai disparado um cocó daqueles “extraordinários” que te atinge a ti, ao quarto ao teu filho, etc. Só por acaso já estás meia hora atrasada para um compromisso.
  • As pessoas acharem que estás de licença e que por isso tens imenso tempo para dormir e descansar, alias que não fazes nada, são uma espécie de férias, em que alias há dias que tens que decidir entre almoçar e tomar banho. Ou entras no duche, começas a pôr o shampoo  e de repente…. – muahhhhhhhhhhhhhhh!!!

Por momentos como estes, muitas vezes senti-me sozinha, chorei ou aguentei-me com vontade de chorar. Pesquisei soluções, pedi ajuda, senti-me feia e trapalhona, inventei desculpas, fiz as refeições mais estranhas, deixei de comer, telefonei a queixar-me a amigas, adormeci sentada e a abanar o berço dezenas de vezes e até me ri perdidamente, numa espécie de lei de Murphy.

 

No fundo, e porque muitas vezes as mães pintam tudo de tão cor-de-rosa, muitas vezes senti-me uma aberração, senti que ao contrário do que sempre senti no meu coração, não tinha nascido para ser mãe. Que não aguentava, que queria a minha vida de volta, que queria silêncio, sair de carro disparada a ouvir musica aos berros e ter umas férias dos miúdos. Sei que se tivesse ajuda, para descansar, sair para jantar ou ir ao cinema, alguém que me ficasse com eles por um bocado, não me sentiria assim. Sei que se tivesse ouvido de outras mulheres que a maternidade também custa, que podes ficar muito cansada por não dormir, que ao princípio dar de mamar dói, mas depois passa, que ao fim de 4 meses de amamentar o teu cabelo vai cair loucamente e que vais passar de umas boobs XL para outras Xs, que muitas vezes o teu filho vai chorar e não vais saber o que fazer, porque simplesmente não se cala e não lhe passa o que quer que se passe, que vão haver momentos em que te sentes exausta e no limite!

 

Nesses momentos que tem que haver alguém que te diz: – Arranja-te e sai, que eu tomo conta do teu bebé. Toma um banho e deita-te que eu fico com ele e tu descansas. Esse alguém que toma conta de nós para que nós possamos tomar conta dos nossos bebés.

 

Quando isso não existir, e pelo menos para te ajudar com estratégias para melhorar a gestão do tempo, para te preparares para o que está para vir, que vai ser maravilhoso, mas também pode ser dramático. Para te artilhar com to do lists, hacks, conselhos de gestão do tempo, produtividade e estratégias para colocar ordem na tua vidas e na tua casa é que eu quero existir, e contribuir de alguma forma para que te sintas mais acompanhada nesta viagem alucinante, mas maravilhosa que é a maternidade!

 

4 thoughts on “Enquanto toma conta do seu bebé, quem toma conta de si?

  1. Nossa, meu bebê ainda nem chegou e eu já me identifico com tanta coisa que você escreveu. Na verdade eu tenho a minha cachorrinha velhinha e doente que é praticamente um bebê e que tem me dado imenso trabalho. Parece uma criança. Então posso já me preparar pra ter “duas crianças” pra cuidar logo logo. E pra tomar conta de mim? Como faço?
    Se tem uma coisa que tem me ajudado muito a atravessar essa gravidez é o teu apoio, conselhos, dicas, orientações. Sou muito grata, de verdade!

  2. Minha querida, identifico-me perfeitamente com o teu texto. Senti essa “dor” de mãe ao primeiro e único filho. Por ainda ter algumas coisas muito gravadas na minha memória (a tal falta de ajuda, o tal respirar que precisamos tanto e que não tive) não me sinto ainda com coragem para ter um segundo filho. Não tive a ajuda de ninguém para ficar com o meu pequenote para ir desanuviar e quando alguém ficava era com os minutos contados. Se ele chorava um pouco ligavam-me logo e diziam me que o tinha que ir buscar porque “não davam conta dele”. Então mal saía, tinha que regressar logo, muitas vezes a meio duma refeição num restaurante com o meu marido. Ouvir coisas do género: “tu é que o fizeste, tu é que tens que criá-lo, eu cá também não tive ajuda portanto …. aguenta-te!” Senti-me desesperada tantas vezes. Esse desespero e frustração levava a que andasse sempre cansada, de mau humor, implicativa, discutia com o meu marido, etc. Até penso que a minha relação deve ter estado em causa umas quantas vezes. Queixava me, mandava “bocas” com esperança de que se fizesse luz na mente de alguém próximo mas fingiam sempre não entender o que estava a querer dizer. Concluía que se me sentia tão mal era porque não tinha nascido definitivamente para ser mãe.
    Disse muitas vezes às pessoas: “tenho saudades de mim” e ninguém percebia esse sentimento. Não me reconhecia. Fiz psicoterapia durante um ano. Também pouco me ajudou. O que ajudou foi mesmo o M crescer e ficar cada vez mais independente. Aos poucos comecei a ter de novo o meu espaço e o meu marido o dele. Combinávamos horários, trocávamos. Já não precisávamos tanto da ajuda um do outro como quando o M era pequeno e já tínhamos mais tempo “livre” para fazer qualquer coisa que gostássemos . As coisas compuseram-se e agora regressar ao zero de novo? Custa-me porque sempre quis (e quero) dar um irmão ao M mas o tempo foi passando e hoje em dia ele tem 5 anos e tenho receio de não me aguentar com a vinda dum bébé, sobretudo tendo uma vida profissional já bem mais exigente do que a que tinha há 6 anos. Dizem que é mais fácil com dois, que tudo se cria, que o trabalho não é tudo, ouvem-se imensas opiniões positivas para me dar força para ter outro filho mas oiço isso de mães que não desesperaram muito com o primeiro e que tiveram sempre apoio.
    Obrigada por partilhares este tipo de sentimentos connosco. Não tens que te expor mas faz-nos sentir mais “normais”. Há muitas mães que se acham péssimas e que têm vergonha de dizer que a maternidade tem momentos que não são nada nada cor de rosa como toda a gente pinta socialmente. Há vergonha em pedir ajuda porque “faz parte do papel, da obrigação, faz parte da vida e todas passaram por isso, é só uma fase”. E com este tipo de pensamento ficamos caladas, frustradas e zangadas connosco, incompreendidas por todos e cheias de vontade de sair porta fora, agarrar no carro, meter as nossas musiquinhas preferidas em altos berros e conduzir por um bom bocado tal como referiste. Tão verdade! 🙂
    Bjokas!

  3. Obrigada Dani. Tem sido um enorme prazer acompanhar-te nesta nova etapa da tua vida. E a gratidão é mutua. Tenho crescido e aprendido imenso contigo. Para começar um conselho que te posso dar é assim que o teu bebé chegar, quando ele dormir dedica alguns minutos a tratar da Pê, nas primeiras semanas ele vai dormir muitas horas por dia e assim que ela estiver tratada, DESCANSA. Acordar varias vezes por noite custa bastante ao inicio e por isso, quando o bebe dorme, deves dormir também! Beijo enorme!

  4. Ana, cada vez que me sinto no limite esse é o meu truque. Assim que tenho quem fique com eles um bocado, ou depois de os deixar na escola meto-me no carro e faço-me à estrada nem que seja por 10 minutos. Ponho a minha playlist preferida aos berros, janela aberta e toca a cantar bem alto para espantar todos os medos, stresses e pensamentos menos bons. Depois parar e pensar. Será que eu sou esta pessoa cinzenta e embirrante? Claro que não! Sou alegre e bem disposta e com um humor muito particular. Eu sei que sou e tu também és. Agarra-te a isso e atira os momentos difíceis para trás das costas!
    Não posso dizer que com o segundo é mais fácil, comigo não tem sido, mas conheces-te melhor! Aprendes os teus limites e ganhas lata para dizer o que pensas, pedes ajuda, exiges colaboração! Além disso eles valem tanto a pena! Beijo gigante cheio de força!

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